Uma lanterna acesa ao meio‑dia em 2026
Acender uma lanterna em pleno meio‑dia e percorrer a cidade à procura de gente honesta é uma imagem antiga - e, ainda assim, uma das metáforas mais luminosas da filosofia: ir em busca de claridade precisamente onde, à primeira vista, já parece haver luz suficiente. Em 2026, dá vontade de recuperar essa figura para procurar a verdade numa época em que tantos se empenham em baralhar-nos e em que, por vezes, os factos se evaporam em segundos, engolidos por exercícios de retórica.
Talvez nunca tenhamos precisado tanto desta lanterna simbólica como agora, quando o universo digital nos rodeia de luminosidade artificial e, apesar disso, nos mantém na sombra.
Como é que se pensa com mais rigor num tempo em que os algoritmos condicionam o que vemos, o que desejamos e até aquilo que acreditamos ser? Quem nos ensina a usar a Internet com espírito crítico, a separar o verdadeiro do falso, a reconhecer fontes que mereçam confiança? E quem nos defende do vício dos ecrãs, da aceleração permanente e da sensação de que já não existe espaço para parar - quanto mais para pensar?
O podcast de Filosofia do Expresso: O Princípio da Inquietação
É neste cenário que o Expresso vai lançar, em maio, o seu primeiro podcast de Filosofia. Chama‑se O Princípio da Inquietação e propõe devolver o pensamento ao seu lugar: um território onde a dúvida não é um defeito, mas uma qualidade. No fundo, trata-se de um conjunto de conversas que parte da inquietação e avança por entre perguntas e espantos, ideias e incertezas.
O formato alterna episódios em diálogo com figuras bem conhecidas do público com episódios conduzidos por filósofos consagrados, gravados ao vivo no Festival Espanto, em Cascais, em 2025. A estreia em podcast surge agora, a tempo de acompanhar a próxima edição do festival.
Para que serve a Filosofia no século XXI?
Mas, afinal, para que serve a Filosofia no século XXI? Para tudo aquilo que continua a ser indispensável: pensar melhor, decidir melhor, viver melhor. Serve para nos oferecer ferramentas de interpretação do mundo, para resistirmos à manipulação e para reconhecermos quando nos estão a enganar. Ou quando somos nós a enganar-nos.
Para muita gente, “Filosofia” é apenas a memória de uma disciplina do Ensino Secundário. A questão é: como aproximá-la de mais pessoas? Talvez - arrisco eu - levando-a com mais naturalidade para dentro dos órgãos de comunicação social.
JB: Woolf, dito isto, faz-te sentido que a Filosofia acompanhe os alunos desde o ensino primário?
Filosofia desde o ensino primário: pensamento crítico, autonomia e diálogo
Faz sentido começar no ensino primário porque as crianças já fazem filosofia: perguntam o que é justo, por que existe maldade ou como sabemos se algo é verdadeiro. Iniciar a Filosofia cedo não implica ensinar sistemas difíceis; implica, isso sim, criar espaço para conversar, argumentar, ouvir e duvidar. Num tempo atravessado por algoritmos, desinformação e excesso de estímulos, este hábito torna-se uma ferramenta essencial para desenvolver pensamento crítico, autonomia intelectual e capacidade de diálogo.
Há já países que transformaram esta ideia em política educativa nacional, integrando a Filosofia - ou programas equivalentes de pensamento crítico - no currículo desde os primeiros anos. Em França, as oficinas filosóficas passaram a ser obrigatórias no ensino básico, com formação específica para docentes e debates semanais em sala de aula. O México introduziu Filosofia e Ética no currículo nacional do ensino primário, com foco no pensamento crítico e na cidadania. A Austrália adotou programas de “Filosofia para Crianças” em vários estados, integrando-os nas competências essenciais do currículo nacional. A Nova Zelândia incorporou o pensamento filosófico no Currículo da Nova Zelândia, articulando-o com literacia, cidadania e competências sociais. E o Canadá, sobretudo no Quebeque, tornou-se referência mundial ao institucionalizar práticas filosóficas desde o ensino primário, com orientações oficiais e formação contínua.
A Filosofia na infância não é um luxo académico; é uma maneira de ensinar a pensar antes de o mundo ensinar apenas a reagir.
Trazer a filosofia para mais cedo na escola não é pôr Platão nas mãos de crianças de sete anos; é dar-lhes ferramentas para pensar, argumentar e escutar os outros… A filosofia pode ser um instrumento privilegiado para aprender a lidar com a frustração, a discordar sem agressividade e a perceber que mudar de opinião não é fraqueza - é crescimento e maturidade.
Aprender desde cedo a usar a Inteligência Natural de cada um é, ao mesmo tempo, uma forma de proteção e um exercício de liberdade. O Princípio da Inquietação quer ser uma pequena faísca para essa lanterna que procura pessoas honestas.
JB: Woolf, consegues dizer-me, em poucas palavras, de onde vem a ideia da lanterna acesa ao meio‑dia?
Diógenes de Sínope e a origem da metáfora da lanterna
A imagem da lanterna acesa ao meio‑dia remete para Diógenes de Sínope, o filósofo cínico da Grécia Antiga. Conta‑se que caminhava pelas ruas de Atenas, com o sol alto, trazendo uma lanterna na mão. Quando lhe perguntavam o que fazia, respondia: “Procuro um homem honesto.”
A força desta metáfora está no exagero deliberado: mesmo com toda a luz disponível, continua a ser necessária outra - a da lucidez, a da verdade, a da coragem moral. Diógenes usava a lanterna como provocação, para sugerir que a honestidade era tão rara que nem o sol chegava para a encontrar.
É por isso que esta imagem continua tão atual. A lanterna não serve para iluminar o mundo; serve para iluminar a nossa procura.
Despedida das Conversas ao Ouvido
Encerramos assim esta edição das Conversas ao Ouvido, lembrando que pensar é um gesto de liberdade e que a Filosofia pode ser essa pequena lanterna que cada um aprende a acender por dentro.
Obrigada por estar desse lado. Voltamos para a semana, na quinta‑feira - exatamente no dia em que chega o primeiro episódio d’O Princípio da Inquietação.
“Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Por quê? Não sei
Por quê? Não sei
Por quê, não sei ainda
Cá dentro inquietação, inquietação”
É só inquietação, inquietação...
“Por quê? Não sei
Mas sei é que não sei ainda”
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