O Crédito Agrícola (CA) aponta a 2027 como o ano em que pretende ocupar o terceiro lugar entre os maiores bancos enquadrados na supervisão do Banco Central Europeu (BCE) em Portugal. O presidente executivo do grupo, Sérgio Raposo Frade, diz que a instituição será “o terceiro maior banco na jurisdição portuguesa, excluindo o Santander Portugal, o BPI e também o Novo Banco, em termos de supervisão do BCE”. Segundo explica, estes três bancos ficam sob supervisão por via dos respetivos acionistas - os espanhóis Santander e La Caixa e o francês BPCE, pela mesma ordem.
Rede de agências do Crédito Agrícola e presença no território
Para o líder do CA, a prioridade passa por consolidar a liderança em grande parte das regiões do país, incluindo as zonas mais afastadas, onde considera existir margem significativa para crescer. A orientação contrasta, sublinha, com a estratégia seguida por outros bancos, que têm vindo a encerrar agências, sobretudo em áreas remotas.
Neste contexto, recorda que a Caixa Geral de Depósitos dispõe de 512 balcões (incluindo 26 gabinetes de empresa) e que o BCP tem 389. Já o CA conta com 615 agências em todo o país; embora tenha vindo a reduzir o número de caixas - atualmente nas 67 -, manteve a rede de agências, reforçou a presença em zonas remotas e, em paralelo, aumentou o quadro de pessoal.
O responsável insiste que a aposta na proximidade é determinante: “O que nos move é sermos líderes na maior parte das regiões do país, mesmo as mais remotas, e há muito espaço para crescermos”.
Força de trabalho em crescimento
Entre 2015 e 2025, o número de trabalhadores passou de 4110 para 4435, o que representa um aumento de 7,3% em dez anos. O crescimento, salienta, aconteceu num período em que a transformação digital na banca tem contribuído para a redução de postos de trabalho.
“Temos um programa ambicioso, temos estado a crescer a um ritmo superior ao da média do mercado (menos de 3% e nós 8%) e hoje temos já 4500 trabalhadores, e, embora tenhamos reduzido o número de caixas, mantemos o número de agências”, afirma Sérgio Raposo Frade. E acrescenta que, “se reduzisse em demasia o número de caixas, o CA perdia as características que o distinguem: estar próximo das localidades e sentir as dores das regiões”.
O gestor admite ainda que poderão ocorrer novas consolidações: “é natural que possa haver fusão de mais algumas caixas”. Justifica a expectativa com a exigência crescente do quadro regulatório e com a importância da escala na atividade bancária: “O negócio bancário é um negócio de escala, a regulamentação tem sido muito exigente do ponto de vista da segregação de funções, do controlo interno, e, como tal, uma caixa mais pequena é mais vulnerável, e muitas vezes são as próprias caixas que sentem necessidade de juntar recursos. Tem vindo a acontecer e é natural que assim continue.”
Paralelamente, o CA quer aumentar a presença nos centros urbanos - Lisboa e Porto - sem abdicar do posicionamento no resto do país. O presidente executivo nota que esta implantação no território nacional tem suportado o crescimento e, em várias localidades, permite ao grupo ser o único banco presente. Nesses casos, refere, as quotas “chegam aos 30%-40% em determinados locais, porque não está lá ninguém”.
€150 milhões por ano em IA
O investimento em inteligência artificial (IA) e analítica avançada ocupa um lugar central no plano definido para três anos. De acordo com Sérgio Raposo Frade, os valores anuais situam-se em torno de €150 milhões, somando custos - como formação e recrutamento - e investimento em novas ferramentas e serviços partilhados.
O líder reconhece que o banco tem uma presença limitada em Lisboa e no Porto, áreas onde, diz, “está 50% do negócio bancário e a maioria das agências”. Admite que o grupo “teve alguns problemas nas Áreas Metropolitanas”, mas garante que estes estão, em grande medida, ultrapassados e que a aposta nessas zonas será agora mais forte do que no passado.
“Hoje podemos dizer que mais do que um terço dos cargos de liderança é ocupado por mulheres”, afirma o líder do Crédito Agrícola
Meta de ativos e passagem para supervisão do BCE
No horizonte traçado, está a expectativa de ultrapassar os €30 mil milhões de ativos. Para Sérgio Raposo Frade, esse patamar representa “o salto para fazer a migração para a supervisão do BCE” e, tendo em conta que o Novo Banco foi adquirido por um grupo francês, o CA passará a ser “o terceiro maior banco na jurisdição portuguesa”. O objetivo está desenhado para três anos, mas o presidente admite que poderá concretizar-se já em 2027.
O ponto de partida, detalha, é a dimensão já alcançada: “A carteira de ativos líquidos ascendia a €29,5 mil milhões em 2025”. Por isso, considera “natural” que o grupo se esteja a preparar para um processo que descreve como exigente e que implicará “uma avaliação bastante abrangente da nossa atividade e especificidades como banco cooperativo”.
O responsável enquadra a evolução na identidade do grupo, lembrando a origem agrícola e a ligação às economias locais: “Fundado na sua base por agricultores, mantém uma estratégia próxima das economias locais, uma virtude que nos tem permitido crescer acima da média”. Acrescenta que o CA tem 400 mil associados - sobretudo particulares residentes, mas também empresas - e explica a estrutura de capital: apenas 10% do capital é remunerado, enquanto 90% corresponde a reservas, isto é, resultados líquidos acumulados.
Com 20 anos no grupo, desde 2013 no Conselho de Administração Executivo e desde agosto de 2025 na liderança, Sérgio Raposo Frade refere que, após a casa arrumada e a “grande transformação que ocorreu em termos de governação”, os objetivos de médio e longo prazo se mantêm estáveis há algum tempo. Indica que o rácio de eficiência está nos 55%, o que, para um grupo cooperativo, considera positivo e compatível com a rentabilidade, que “ronda os 7,5%”. Sublinha ainda que a eficiência e a rentabilidade não fragilizam a solidez do banco, devido a “um modelo mais conservador de aplicação de capitais”, embora recorde as dificuldades sentidas em 2008, com a crise do subprime, e em 2011, com a dívida soberana.
Sobre a evolução da representatividade de género, responde: “Hoje podemos dizer que mais de um terço dos cargos de liderança (executivos e diretores de primeira linha) é ocupado por mulheres. Em 2018, no Conselho de Administração e no Conselho Fiscal do grupo só 16% eram mulheres (85), e em 2025 essa percentagem está nos 39% (166).”
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