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25 de Abril e o elevador social da educação: histórias de gerações

Jovem segurando cravo vermelho, livros e passaporte com bandeira de Portugal num varandim com fotografias.

O pai de José Pacheco não sabia ler nem escrever. Na aldeia mineira do Lousal, em Grândola, onde vivia com a mulher e os três filhos, isso estava longe de ser exceção. Essa realidade via-se até lá em baixo, dentro da mina de pirite: parte da sinalização de perigo recorria a desenhos, para garantir que todos os mineiros percebiam o risco.

E não era um fenómeno isolado. Em 1970, quando ainda faltavam quatro anos para a Revolução, 26% da população era analfabeta - com maior incidência nas mulheres (31%) do que nos homens (20%). Se a escola funciona como elevador social, a ausência de escolaridade era, naquele tempo, um travão duro. Em 1974, apenas 18% da população chegava ao terceiro ciclo, 5% terminava o ensino secundário e 1% alcançava a universidade.

Com o 25 de Abril, a democratização do acesso ao ensino fez crescer, a um ritmo acelerado, as qualificações da população ativa e, por arrasto, transformou o mundo do trabalho. Em poucas décadas, as diferenças entre gerações dispararam: avô mineiro, neta marketeer; pai operário, filha juíza; avó costureira, neta criminologista.

“Alguma vez o meu pai sonhou sequer em ter uma neta licenciada?” José Pacheco conseguiu, com orgulho, quebrar o ciclo de pobreza que amarrava a família aos primeiros anos de escolaridade e, em muitos casos, ao analfabetismo. Reformou-se há nove anos, apesar de ter apenas 62. Desde os 23 que era mineiro de profundidade, e as milhares de horas em turnos contínuos nas minas de Neves Corvo acabaram por lhe dar acesso à reforma antecipada.

Também o pai tinha vivido da mina - e morreu cedo, com os pulmões marcados pela silicose, consequência de nunca ter usado máscara, luvas, nem qualquer proteção desde que começou no Lousal, aos 18 anos. Pedia-lhe sempre que não repetisse o mesmo caminho, mas naquele Alentejo muito pobre não havia emprego alternativo a que se pudesse agarrar. José, porém, cumpriu a promessa na geração seguinte: filho seu não desceria ao fundo, e não desceu. Teve dois, Tânia e Ricardo, e assegurou-lhes outro destino.

O trabalho em Neves Corvo - uma mina moderna, onde subsídios de fundo, de turno e de risco aumentam o rendimento mensal - permitiu à família subir vários degraus nas habilitações. “Quando vi a minha Tânia no dia da Bênção das fitas vieram-me as lágrimas, porque eu não pude… só fiz o 6º ano. Desde pequeno que percebi que ia dar pouco tempo à escola. Aos 14 anos comecei a procurar trabalho. Era o que nos estava destinado.”

A filha formou-se em Marketing. O filho seguiu Eletromecânica, com equivalência ao 12º ano, “empurrado” pela família, depois de insistir que queria ficar pelo 9º ano. “Tivemos de lhe fazer ver a importância de seguir os estudos. Não podia estar a fechar oportunidades. Nós não seguimos porque não pudemos, éramos logo incapacitados pela vida”, conta José. Entretanto, Tânia mudou de rumo: aos 40 anos, trabalha por conta própria como cake designer. “São obras de arte que saem daquelas mãos”, diz o pai, sem esconder o orgulho.

A primeira da família: o elevador social da educação

A juíza Albertina Pedroso tem praticamente a idade de José Pacheco - é apenas dois anos mais nova -, mas no seu caso foi ela própria quem subiu no elevador social da educação, ultrapassando pelo caminho várias barreiras ainda por abrir. Foi a primeira licenciada da família e, hoje, mais de 50 anos depois do 25 de Abril, é a primeira mulher a presidir ao Tribunal da Relação de Évora.

“Os meus pais tinham a 4ª classe. Esta minha vontade de estudar, de ir para a universidade, de ser juíza, sai não sei bem de onde. Não sabia se daria para fazer mas deu. E tem sido muito gratificante e uma prova do que é possível atingir com uma escola pública de qualidade”, explica a magistrada. “O 25 de Abril deu à minha geração esta sensação de que podíamos fazer tudo, de que podíamos ser tudo, deu-nos um inconformismo que nos fez crer que tudo é possível”, acrescenta.

Albertina nasceu em Alverca do Ribatejo. A mãe e a avó - de quem herdou o nome - trabalhavam no comércio; o pai era operário nas oficinas aeronáuticas de Alverca. Sensível às injustiças, aos 14 anos decide que será juíza, sem sequer saber que a ditadura lho vedava por ser mulher. Só em 1977 o acesso à magistratura passou a estar aberto ao sexo feminino. Até lá, era um território exclusivamente masculino.

Os números ajudam a enquadrar esse tempo: oficialmente, em 1970, só 25% das mulheres com 15 ou mais anos trabalhavam. E, sobretudo no caso das casadas, o direito de o fazer livremente dependia da autorização do marido. Hoje, Portugal está entre os países da União Europeia com maior participação feminina no mercado de trabalho, a par dos nórdicos. Ainda assim, a igualdade foi - e continua a ser - um caminho iniciado em Abril que não está concluído, em especial na disparidade salarial e no acesso a cargos relevantes.

Também o perfil do trabalhador mudou muito nas últimas décadas. Até aos anos 2000, predominavam homens entre os 25 e os 44 anos, com o 1º ciclo do ensino básico, ocupados na indústria, construção e em ofícios artesanais. Em 2025, continuavam a existir mais homens do que mulheres, mas com uma diferença já curta (49,2% da população empregada eram mulheres), na mesma faixa etária, agora com ensino superior e a desempenhar profissões nas atividades intelectuais e científicas. Ainda assim, a maior fatia de trabalhadores mantém-se entre os 25 e os 44 anos, sendo que mais de metade tem 45 anos e mais.

Estudar em Inglaterra

Nuno Figueiredo está precisamente nessa metade. Tem a idade da Revolução, menos uns pozinhos: nasceu em dezembro de 1974. Cresceu em Lisboa, na Rua de Campo de Ourique, numa altura em que o Casal Ventoso ainda deixava a zona marcada pela negativa. Fez os estudos até ao 12º ano, com sobressaltos de rebeldia e a tropa pelo meio, mas os pais não o deixaram ficar por aí.

E “por aí” já era mais do que eles tinham conseguido: ficaram-se pela 4ª classe. A mãe era costureira; o pai, responsável pela reprografia dos CTT, com raízes anteriores à mudança para a capital no Furadouro e em Canas de Senhorim.

“Eu não fui para a universidade porque não quis. Naquela altura já se dava importância ao curso mas ainda se valorizava mais a experiência e eu trabalhava todas as férias, em distribuição de publicidade, fiel de armazém, estudos de mercado. Acabei por arranjar emprego na Unilever, nos gelados Olá, e estou lá há 30 anos”, recorda. Entrou como vendedor e é hoje responsável comercial da Grande Lisboa.

Quando chegou o momento de as duas filhas escolherem o percurso académico, Nuno e a mulher, Ângela, deram-lhes liberdade, mas também orientação. “São tempos diferentes. Hoje um curso vale mais. Olha-se para as candidaturas e muito dificilmente se vê alguma que não peça formação superior”, diz. No entanto, não foi preciso grande persuasão: ambas queriam a universidade e pediram, além disso, para estudar fora do país - um upgrade no currículo característico das novas gerações.

Rita, a mais velha, já concluiu Teatro e Cinema em Londres e, por agora, continua na capital inglesa. Magda, com 18 anos, entrou este ano na Universidade de Portsmouth para estudar Criminologia. “O meu sogro, que é alentejano do Crato, e que foi bate-chapas a vida toda, costuma frisar muitas vezes que aos 11 anos já ele trabalhava como aprendiz de oficina, que não teve infância, e que agora as netas podem felizmente estudar até estas idades. As coisas evoluíram mesmo muito. E ainda bem.”

[Quem aqui escreve é neta de Augusta, contrabandista de café e perfumes na raia, e de Júlio, que foi a salto para França, viveu nas ‘bidonvilles’ de Paris e trabalhou na construção; ela manteve-se analfabeta até uma idade já muito adulta, quando decidiu que era tempo de conseguir ler o mundo por si. Puseram o filho mais velho no seminário - não por o quererem padre, mas para que tivesse acesso aos estudos. Do lado da mãe, há um avô Quim, caixeiro-viajante, que atravessava o Alentejo de burro e carroça a vender tecidos, xailes e colchas, e uma avó Maria, doméstica, com cinco filhos a cargo, três dos quais emigraram e não voltaram.]
Por Eunice Parreira

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