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Fawzia al-Otaibi: do exílio na Escócia à luta pelas irmãs na Arábia Saudita

Mulher árabe de hijab ao telemóvel junto à janela, laptop com videochamada e placa "Free My Sister".

Fawzia al-Otaibi saiu da Arábia Saudita depois de ser chamada pelas autoridades. As duas irmãs mais velhas não conseguiram o mesmo desfecho: Maryam está impedida de viajar e Manahel continua detida pelo regime. As três tornaram-se rostos da contestação ao sistema do "guardião masculino", um movimento que surgiu nas redes sociais há dez anos para confrontar, às claras, leis e práticas que colocam as mulheres sauditas sob tutela dos homens.

A viver no exílio, na Escócia, Fawzia encabeça uma campanha internacional pela libertação de Manahel. Em declarações ao "Jornal de Notícias", a ativista descreve o contraste entre as reformas apresentadas como progressistas por Mohammed bin Salman e a perseguição a mulheres que se atreveram a exercer e a tornar públicos os seus direitos.

A sua família tornou-se um símbolo de resistência na Arábia Saudita. Alguma vez imaginou que exigir autonomia como mulher seria algo que lhe traria tantos custos?

Nunca me vi como heroína, nem como exemplo para outras mulheres na Arábia Saudita. O modo como comecei a reagir e a defender os direitos das mulheres foi sempre pacífico - sem violência, sem confrontos. Não fazia ideia de que acabaria fora do meu país, perseguida pela estrutura mais importante do regime. Estou sozinha num país que nada tem a ver com a Arábia Saudita. E, se olharmos para o outro lado, a verdade é que a minha família ficou completamente destruída: uma irmã está presa, outra não pode viajar e a terceira - eu - está impedida de voltar ao seu país.

De que forma o exílio mudou a sua identidade, como mulher saudita, ativista e uma irmã separada da família?

Pensava que, no exílio, iria continuar a falar de forma anónima, sem expor o meu nome e sem dar visibilidade à nossa família. Mas fui empurrada para o espaço público: tive de dizer quem sou para poder proteger a minha família, em primeiro lugar, e as outras mulheres, em segundo. Nunca imaginei carregar esta responsabilidade. Toda a minha família na Arábia Saudita espera que eu fale, que os defenda e que exija os seus direitos. É um peso enorme.

Sentiu algum choque de realidade com a liberdade em exílio?

Aos 12 anos sofri muito e comecei a perceber melhor as leis regressivas. Fiquei espantada com a vida em que estava inserida e comecei a pensar que não queria aquele destino. Foi aí que comecei a defender-me. Quando o meu pai me disse que eu estava a ser acusada do crime de terrorismo, achei que ele estava a brincar. Eu não tinha feito nada que justificasse uma acusação dessas. A nossa casa foi invadida e eu fui detida com essa acusação, mas consegui fugir do país. Ao sair da Arábia Saudita, percebi que aquilo a que eu aspirava era apenas uma vida normal - a vida que qualquer pessoa deveria poder ter.

Está fisicamente livre, mas as irmãs continuam presas pelo sistema. Como é viver com esta contradição todos os dias?

É algo muito duro para mim. Sou obrigada a viver com essa contradição emocional e, neste momento, não tenho alternativa. Tenho de enfrentar, todos os dias, os desafios que surgem, porque tenho uma família para salvar. Fomos torturadas apenas por expressarmos uma opinião, sem procurarmos conflito, sem termos armas. Nem sequer fomos contra o Governo; fomos contra a lei que não nos deixa viver em liberdade. É muito difícil, mas, nesta fase, vou continuar a adaptar-me.

A Manahel foi acusada de "terrorismo" por causa de publicações nas redes sociais, o que é que isto nos diz sobre como a Arábia Saudita define a dissidência?

Essa sentença mostra-nos que toda a propaganda feita pela Arábia Saudita - a pretexto de mudanças nas leis - é falsa e não trouxe qualquer resultado, nem para nós nem para eles. Ficámos chocados quando, nesse ano, aconteceram acordos desportivos que também serviram de propaganda para esconder a campanha de detenções de mulheres. Havia muitas mulheres presas.

O que se sabe neste momento sobre a condição em que a Manahel está?

Quando foi detida, a Manahel foi torturada e colocada em confinamento individual, sem poder falar com ninguém. Sempre que falávamos publicamente do caso, a Manahel e as mulheres presas com ela eram torturadas. A Manahel foi esfaqueada na cara e ficou com uma perna partida. Não recebeu cuidados médicos, nem o mínimo em termos de direitos humanos. Neste momento, a sentença passou de 11 para cinco anos e ela está um pouco melhor, depois da pressão que tem sido feita.

Como comunicam?

Com a pressão muito elevada que fizemos contra o Governo e junto de decisores em todo o mundo - com o apoio da Amnistia Internacional e de outras organizações - conseguimos melhorar as condições dela. Agora, conseguimos falar com ela uma vez por semana, mas as chamadas são sempre monitorizadas e ela não pode dizer nada sobre a situação atual na prisão. Nós podemos falar do que quisermos, mas ela não pode responder. Disse-nos que é medicada sempre que há uma chamada. Não sabe que medicamento é, mas sente dores no corpo. Não chega a ficar inconsciente, mas fica "adormecida", para não conseguir passar qualquer mensagem. Em cada conversa, pede ajuda - seja assistência médica, seja intervenção internacional.

Se pudesse passar uma mensagem de apoio à irmã, o que diria?

Queria dizer-lhe que o mundo inteiro está do lado dela e que eu nunca vou desistir. Infelizmente, ela não vai conseguir ouvir essa mensagem.

Como é que os pais lidaram com a situação?

O meu pai chorou quando soube que eu estava a falar publicamente. Foi a primeira vez que o vi em lágrimas. Disse-me que eu iria ser torturada e morta, que o Governo destruiria qualquer mulher que falasse dos seus direitos. Eu respondi-lhe que não, que eles só queriam meter-nos medo para abandonarmos estas ideias, e que eu acreditava que o príncipe herdeiro Mohamed bin Salman iria dar direitos às mulheres e trazer muitas mudanças para o povo. Isso foi há mais de 10 anos. Eu esperava uma mudança real, mas aconteceu exatamente o contrário.

Os meus pais, que não tinham qualquer relação com o que fizemos, também chegaram a ser ameaçados. Disseram-lhes que a responsabilidade era deles e que nos deviam obrigar a parar de falar. Houve um momento em que ele foi acusado de liberalismo - e ele nem sabia o que significava liberalismo. Foi chamado à esquadra de polícia de forma muito cordial, quase como se fosse uma cortesia, e disseram-lhe que não o iriam condenar, mas que queriam que o filho mais novo matasse as três irmãs. Disseram que ele não seria julgado, que seria considerado um conflito familiar, e que o processo seria encerrado. O meu pai voltou para casa, desligou todos os telemóveis e disse-nos que, apesar de não estar sujeito a uma pena, infelizmente estava sujeito a matar-nos. Ficou em choque, sem saber o que fazer. O Governo saudita tentou matar-nos, sem sucesso. Achavam que, se morrêssemos às mãos de alguém da família, conseguiam limpar a imagem do que tinham feito. Fomos torturadas quando fomos detidas, mas o caso tornou-se conhecido no mundo inteiro, o que criou grande pressão e deixou o Governo fragilizado.

A Arábia Saudita passa uma imagem de modernização e abertura da vida pública, onde as mulheres já podem conduzir e ir a concertos, mas penaliza quem usufrui das liberdades?

O Governo anunciou que as mulheres podiam conduzir e, quando a ativista Loujain al-Hathloul comunicou que conduzia, foi detida. No nosso caso, denunciámos o "guardião masculino" imposto às mulheres. E aconteceu o mesmo: quando falámos, fomos detidas. Mesmo tendo passado muitos anos entre os dois casos, a verdade é que, na prática, o Governo toma decisões que não coincidem com aquilo que está na lei. Anunciam reformas na Arábia Saudita, mas depois a realidade é outra. O Governo usa esta estratégia para limpar a imagem do regime saudita. Por exemplo, o acordo do Cristiano Ronaldo foi feito no mesmo mês em que fomos detidas, para se falar do Cristiano e se esquecer o que acontecia do outro lado.

O desporto é usado como uma ferramenta para distrair as pessoas dos abusos de direitos humanos, o dito "sportswashing"?

Quando eu soube, pessoalmente, do acordo do Cristiano Ronaldo com o Governo, ou com a equipa Al Nassr, tive 100% de certeza de que essa é uma das formas usadas para encobrir a opressão contra as mulheres - sobretudo porque o acordo coincidiu com a nossa detenção.

Muitos Governos ocidentais congratulam as reformas na Arábia Saudita e mantêm laços políticos e económicos. Sente que falharam com as mulheres sauditas?

Sinto-me desiludida. O regime promove estas relações e vai dizendo que os governos estrangeiros só se importam com o petróleo e não se preocupam com os direitos das mulheres. Por exemplo, as mulheres no Irão conseguem falar e ir a protestos, enquanto na Arábia Saudita não podemos fazer nada. O único gesto que conseguimos foi criar uma conta no Twitter - e fomos denunciadas e detidas.

O que lhe dá força para continuar a lutar contra um sistema demasiado poderoso e indiferente à causa?

Quando comecei a falar sobre os direitos das mulheres, quando criei a conta nas redes sociais, o regime era mais forte do que é agora. Infelizmente, deixei que as minhas irmãs participassem comigo. Por isso, assumo toda a responsabilidade de continuar a defendê-las, enquanto eu estou aqui em liberdade e elas estão lá. Continuar a falar é o mínimo que devo fazer, e não vou parar. Consegui apoio internacional de um grande número de ativistas e, por isso, tenho um motivo forte para continuar a lutar. Nós deixámos o regime muito mais fraco.

As irmãs só poderão ser livres, e eventualmente sair do país, com uma mudança de regime?

Acredito que a única saída para as minhas irmãs é a pressão de decisores e diplomatas internacionais sobre o Governo da Arábia Saudita. Se não houver alterações nas leis, pelo menos que lhes permitam sair do país. Quando tornámos pública a nossa opinião, fomos atacadas de forma miserável pelo regime. Por isso, neste momento, a via diplomática parece a solução ideal, mais do que tentar mudar a lei.

Que tipo de país espera encontrar se um dia puder regressar?

Queria poder falar livremente e dar uma opinião sem ser castigada. Queria que as crianças e os jovens também tivessem direitos, e que existisse uma reforma geral para que ninguém fosse torturado. Gostava que houvesse um Governo para apoiar o povo, e não para o ameaçar ou assustar. No futuro, desejava que fôssemos um exemplo para a próxima geração, para que, a partir do nosso sofrimento, possam viver uma vida livre e melhor do que a nossa. Mas, primeiro, quero libertar as minhas irmãs.

Uma família destruída

Maryam al-Otaibi

A irmã mais velha abriu caminho no ativismo. Foi detida em 2017 e passou 104 dias na prisão. Continua sujeita a limitações, incluindo a proibição de viajar, e é frequentemente alvo de assédio judicial.

Manahel al-Otaibi

A instrutora de condição física e influenciadora foi detida em 2022. Dois anos depois, foi condenada a 11 anos de prisão por "crimes terroristas", ligados a publicações nas redes sociais em defesa dos direitos das mulheres - como o uso de hashtags feministas e imagens sem abaia (túnica tradicional usada por mulheres muçulmanas no Médio Oriente). Em agosto do ano passado, a pena foi reduzida para cinco anos de prisão, seguidos de cinco anos de proibição de viagem.

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