Falta pouco mais de cinco meses para as eleições que vão determinar a orientação do Brasil durante os próximos quatro anos. No plano estadual, cada estado elegerá o respetivo governador e os deputados estaduais. Já a nível nacional, irão a votos os candidatos a deputados federais, senadores e Presidente, num contexto em que os principais nomes à procura do poder executivo tentam conquistar eleitores para lá das suas bases habituais.
Calendário eleitoral e dinâmica da pré-campanha
A campanha eleitoral só arranca a 16 de agosto, cerca de mês e meio antes do dia da votação. Ainda assim, nesta fase de pré-campanha, os candidatos vão deixando claro que temas tencionam privilegiar e que postura querem projetar, numa tentativa de chegar à vitória nas urnas. Enquanto Lula aposta em dar visibilidade a matérias associadas à ação governativa, Flávio Bolsonaro procura encurtar distância junto do eleitorado moderado e, em particular, das mulheres.
Sondagens e cenário de segunda volta entre Lula e Flávio Bolsonaro
De acordo com estudos de diferentes institutos especializados, o quadro atual aponta para a possibilidade de uma segunda volta nas presidenciais entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Uma sondagem da Atlas/Bloomberg, divulgada esta semana, indica que o atual chefe de Estado lidera em todos os cenários de primeira volta, atingindo 46,6% das intenções de voto - um valor abaixo da maioria exigida para vencer sem nova votação. Em segundo lugar surge Flávio Bolsonaro, com 39,7%, mais de 34 pontos percentuais acima do terceiro colocado. O mesmo inquérito mostra empate na segunda volta, com vantagem de 0,3 pontos percentuais para o bolsonarista.
Uso de políticas públicas para “dividendos eleitorais”
Jorge Chaloub, professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz ao Expresso que ainda “falta muita água para começar a campanha e a eleição”, pelo que os cenários podem mudar de forma significativa. Mesmo assim, considera que a disputa presidencial deverá opor, por um lado, a capacidade do atual chefe de Estado de mobilizar a máquina pública durante a campanha e, por outro, a tendência global para punir governantes nas urnas.
“Quem está à frente do Governo tem a possibilidade de fazer políticas públicas, de mobilizar a máquina do Estado e de demonstrar o que fez ao longo dos últimos quatro anos, o que, mesmo com a onda anti-incumbente, ainda me parece uma vantagem”, detalha o académico.
Chaloub sublinha que este contexto também condiciona Lula, que procura evitar críticas por campanha antecipada. Assim, só a partir de agosto deverá haver uma intensificação dos “ataques” do líder do Partido dos Trabalhadores (PT, esquerda) contra Flávio Bolsonaro. Até lá, a atuação na pré-campanha tende a assentar noutros elementos.
“Acho que o PT e o Governo Lula estão tentando encontrar um caminho para fazer políticas públicas que afetem a população trabalhadora do país e que rendam dividendos eleitorais”, avalia Pedro Lima, igualmente professor do departamento de Ciência Política da UFRJ. Entre medidas recentes, destaca a isenção de imposto sobre o rendimento para quem ganha até cinco mil reais (859 euros), um pacote destinado a travar o endividamento das famílias e a defesa de um projeto de revisão da Constituição que proíbe a “escala 6x1”, com seis dias de trabalho e apenas uma folga semanal.
Apesar de a alteração fiscal não se ter traduzido numa subida expressiva de Lula nas sondagens, Lima entende que a pressão para reduzir a jornada de trabalho se tornou uma aposta do chefe de Estado, por ser “amplamente popular”. O docente alerta, porém, para uma possível “consolidação das preferências eleitorais na extrema-direita ou na esquerda moderada”, o que pode limitar a capacidade de as políticas públicas deslocarem intenções de voto.
A busca pelo centro político
Sem integrar o poder executivo, Flávio Bolsonaro direciona a pré-campanha para captar indecisos e ganhar terreno junto do eleitorado feminino. Jorge Chaloub lembra que, desde 2018, o Brasil tem mostrado um afastamento entre géneros nas preferências eleitorais: “Cada vez mais, mulheres votam na esquerda e homens votam na direita.”
Para contrariar essa tendência, Flávio terá reforçado a presença da sua mulher, Fernanda Bolsonaro, nas redes sociais, segundo noticiou o jornal “O Estado de São Paulo”. Num dos vídeos partilhados pelo casal, Fernanda afirma que o marido é um “Bolsonaro moderado”.
Pedro Lima recorda que a tentativa de atrair mulheres também esteve presente na campanha de Jair Bolsonaro em 2022, então com recurso a Michelle Bolsonaro. Acrescenta ainda que o ex-Presidente “sempre teve um discurso muito beligerante em relação às mulheres, de maneira geral, muito machista, muito misógino”, nas palavras do professor da UFRJ.
No caso de Flávio, a estratégia para conquistar o voto feminino cruza-se com a intenção de se apresentar como um candidato moderado durante a pré-campanha, procurando atrair indecisos e eleitores de centro. Essa imagem contrasta com o historial familiar: Jair foi condenado por tentativa de golpe de Estado e, anteriormente, elogiou o período da ditadura militar, bem como figuras associadas à prática de tortura durante esse regime autoritário. Em paralelo, Flávio chegou a pedir “pressão diplomática” internacional nas eleições deste ano, num evento realizado nos Estados Unidos da América.
Chaloub sustenta que há um “núcleo [eleitoral] que espera a radicalidade”, o que pode dificultar a moderação ensaiada por Bolsonaro filho. Lima concorda e aponta o “dilema” da extrema-direita em 2026. “Por um lado, [Flávio] tem de agradar à franja mais extremista do eleitorado bolsonarista”, afirma. Por outro, é essencial “ampliar” a base, mas “se se moderar de mais, pode ser visto com certa desconfiança por aquele eleitorado extremista”.
Ainda assim, a tentativa de apresentar moderação não se limita à extrema-direita e atinge também a pré-candidatura de Lula. O PT aprovou um manifesto com propostas para as eleições que procura “chamar o centro para compor com Lula”, segundo José Guimarães, ministro das Relações Institucionais, citado pela “Folha de São Paulo”.
Tanto Chaloub como Lima assinalam que este tipo de movimento é recorrente no PT e faz parte da estratégia usada desde 2002, quando Lula venceu pela primeira vez. Lima evoca, como exemplo dessa procura do centro, a escolha do empresário José de Alencar para vice-presidente naquele momento. Em 2022, Geraldo Alckmin - adversário relevante do PT nos anos 2000 pelo PSDB (centro-direita) e derrotado por Lula na primeira reeleição, em 2006 - integrou a candidatura presidencial, algo que voltará a repetir-se este ano.
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