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Maria da Graça Carvalho: a cientista influente de Beja que é ministra do Ambiente e da Energia aos 71 anos

Engenheira com capacete branca analisa documentos junto a painéis solares e turbinas eólicas num campo.

Serenidade em tempo de crise energética

Natural de Beja, Maria da Graça Carvalho sonhava, ainda criança, vir a ser engenheira - e acabou por se afirmar como uma cientista influente. Há 23 anos trocou o laboratório pela vida política, deixando também marca em Bruxelas. Mesmo com a crise energética global e a pressão criada por preços dos combustíveis em máximos históricos, alimentada pela guerra no Irão, tem conseguido atravessar a turbulência sem beliscar a sua credibilidade.

Na apresentação do relatório sobre o apagão de abril de 2025, realizada há poucos dias, a ministra foi perentória ao afirmar que "a nossa rede elétrica é resiliente e fiável" e ao sublinhar que o Governo já pôs em prática uma parte significativa das recomendações ali inscritas. A forma calma e a mensagem direta tornaram-se características de uma governante reservada, associada a uma imagem pública de ponderação e capacidade de decisão - frequentemente enquanto outras figuras do Executivo eram consumidas por polémicas. Entre o apagão, tempestades e outros episódios extremos, podia ter visto desmoronar-se a fase inicial de confiança política; em vez disso, manteve a reputação de quem domina o tema e evita dramatizar, preferindo transmitir segurança.

Beja, o Técnico e o impulso para a engenharia

Maria da Graça Carvalho nasceu em Beja, há 71 anos, num dia que ficou assinalado no café Luiz da Rocha, espaço emblemático da cidade e referência da doçaria alentejana, onde o nascimento foi anunciado. O pai, Aldemiro da Silva Carvalho - arquiteto reconhecido, entretanto falecido - estaria, nesse abril de 1955, envolvido na grande requalificação do estabelecimento. "Vieram chamá-lo e avisá-lo de que a filha tinha nascido", recorda António Leandro, um dos cooperantes que gerem o café. "Ela sempre frequentou a nossa confeitaria com os pais. Esta casa também lhe diz muito. E quando vem a Beja, não passa aqui sem vir cumprimentar a gente."

A mãe lecionava Biologia no Liceu Nacional de Beja e, entre os alunos, teve figuras como Carlos Moedas, hoje presidente da Câmara de Lisboa. Foi também nesse liceu que, em 1972, Maria da Graça se destacou ao ser considerada a melhor aluna do país no Secundário. Desde pequena tinha a ideia bem definida: queria ser engenheira e queria compreender energia - e seguiu esse caminho. Entrou em Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico, da Universidade de Lisboa, destacando-se num meio dominado por homens. O desempenho académico abriu-lhe ainda a porta a um convite para doutoramento no Imperial College of Science, Technology and Medicine, em Londres.

Maria da Graça Carvalho: da ciência à Europa e ao Governo

Conhecida por alguns mais próximos como Graça ou Gracinha, já dava aulas no Técnico nos anos 1980 quando Pedro Coelho, atualmente professor catedrático e então estudante, se cruzou com ela. "É uma pessoa muito dinâmica, a nível de envolver-se em projetos e procurar financiamento para investigação. Era particularmente evidente que estava vocacionada para cargos de gestão na área da energia." O currículo científico consolidou-se com mais de 100 artigos publicados e distinções no percurso - do Prémio Maria de Lourdes Pintasilgo, dedicado a mulheres cientistas, a uma condecoração atribuída pelo Presidente da República Jorge Sampaio.

Ainda assim, a transição para a política não parecia inevitável: nunca teve filiação partidária. O convite decisivo chegou em 2003, quando Durão Barroso, então primeiro-ministro, a chamou a São Bento para lhe propor a tutela do Ensino Superior, num contexto de crise associada às propinas. Permaneceu no cargo durante o curto período de Santana Lopes e, mais tarde, rumou a Bruxelas para integrar a equipa de Durão Barroso já como presidente da Comissão Europeia, na qualidade de conselheira. Eleita eurodeputada pelo PSD, assumiu a relatoria do Horizon 2020, o programa comunitário de investigação e inovação, e foi distinguida como melhor Membro do Parlamento Europeu na área da Ciência e Inovação. Trabalhou igualmente em dossiers de igualdade de género, negociando diretivas nesse âmbito, e, no campo da energia, foi relatora do regulamento europeu que define a partir de quando os Estados podem declarar crise energética.

Não surpreendeu, por isso, que em 2024 tenha sido escolhida por Luís Montenegro para liderar a pasta do Ambiente e Energia. Carlos Moedas, que a conhece quase desde o nascimento, sublinha: "A Graça Carvalho conhece a técnica e a ciência como poucos, e pôs isso ao serviço da missão política. Com uma grande humanidade." E acrescenta que o respeito por ela é transversal na Europa. "Quando fui comissário europeu, ela esteve a ajudar-me. E todos a conhecem no Parlamento Europeu, sobretudo nas áreas da indústria, energia, ciência e ambiente. Um dos deputados mais reputados nestas áreas é um alemão que a consultava frequentemente."

Já em Portugal, pouco depois de tomar posse no Governo, há dois anos, perdeu a mãe. Não é casada, não tem filhos e é descrita como workaholic: quando não está a trabalhar, está a trabalhar. Dorme pouco. É conhecido que não aprecia sentar-se à mesa para comer e passa ao lado de mesas fartas, numa atitude que muitos associam a uma mentalidade nórdica. Rigorosa e pouco dada a cerimónias, privilegia a prática: leva sapatilhas para visitar obras e impermeável para os dias de chuva (e não gosta que lhe segurem um guarda-chuva por cima). Conhece o país de lés a lés - cidades, edifícios, doces tradicionais e estradas - ao ponto de dispensar GPS. Há quem diga que, pela clareza com que define objetivos, quase nem necessitava de assessores.

O Alentejo continua a ser parte da sua identidade e já foi vista a cantar modas alentejanas em público: ao lado de António Zambujo, na Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas no Brasil, ou em Évora, integrada num grupo de cantares. Quando, este ano, as tempestades atingiram Portugal, recebeu elogios generalizados de autarcas das zonas afetadas. "É uma pessoa muito qualificada, competente, muito disponível para ouvir e ajudar", afirma Ana Abrunhosa, presidente socialista da Câmara de Coimbra. "Na minha região, ela foi felizmente o rosto do Governo na resposta à calamidade. É uma pessoa extraordinária a nível humano, técnico, que domina os dossiês, e político. Tivemos muita sorte de ter esta ministra ao nosso lado." Como Abrunhosa realça, as intervenções para reparar estragos já avançaram - um traço que muitos lhe atribuem: o de fazer acontecer. "Não contem comigo para adiar obras", afirmou, há uma semana, no Parlamento.


  • Cargo: Ministra do Ambiente e Energia
  • Nascimento: 09/04/1955 (71 anos)
  • Nacionalidade: Portuguesa (Beja)

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